TODO AQUELE QUE CRÊ NUM DOGMA, ABDICA COMPLETAMENTE DE SUAS FACULDADES. MOVIDO POR UMA CONFIANÇA IRRESISTÍVEL E UM INVENCÍVEL MEDO DOENTIO, ACEITA A PÉS JUNTOS AS MAIS ESTÚPIDAS INVENÇÕES.

Sexta-feira, 30 de Abril de 2010

LUCAS, Cap. XV, w. 11-32

 

V. 11. Disse ainda : Um homem tinha dois filhos. — 12. O mais moço disse ao pai : Meu pai, dá-me a parte que me há de tocar dos teus bens. E o pai repartiu com os dois os seus bens. — 13. Poucos dias depois, o filho mais moço reuniu tudo o que era seu, partiu para um país estranho e muito distante e aí dissipou os seus haveres em desregramentos e deboches. — 14. Quando já havia dissipado tudo, grande fome assolou aquele país e ele começou a passar privações. — 15. Foi então e entrou para o serviço de um dos habitantes do país, o qual o mandou para uma sua fazenda a apascentar os porcos. — 16. Aí, muito gostaria ele de encher a barriga com as landes que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. — 17. Afinal, caindo em si, disse : Quantos jornaleiros há, na casa de meu pai, que têm pão em abundância, enquanto que eu aqui morro de fome! — 18. Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e lhe direi : Meu pai, pequei contra o céu e contra ti. — 19. Não mais sou digno de que me chames teu filho; trata-me como a um dos teus jornaleiros. — 20. E levantando-se, foi ter com o pai. Vinha ele ainda longe quando este o viu e, tomado de compaixão, correu-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. — 21. Disse-lhe o filho: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; não sou mais digno de que me chames teu filho. — 22. O pai disse, porém, a seus servos : Trazei-me depressa a melhor das roupas e vesti-a nele; ponde-lhe um anel no dedo e calçado nos pés; — 23, trazei também um novilho gordo e matai-o; comamos e regozijemo-nos; — 24, pois que este meu filho estava morto e ressuscitou; estava perdido e foi achado. E começaram a festejar o acontecimento. — 25. O filho mais velho, que estava no campo, ao aproximar-se de casa, ouviu música e rumor de dança. — 26. Chamou um dos servos e perguntou o que era aquilo. — 27. O servo respondeu: É que teu irmão voltou e teu pai mandou matar um novilho gordo por tê-lo recobrado são e salvo. — 28. O rapaz se indignou e não queria entrar. O pai saiu e se pôs a lhe pedir que entrasse. — 29. Ele, porém, disse: Já lá se vão tantos anos que te sirvo, sem jamais haver transgredido ordem tua e nunca me deste um cabrito para que eu me banqueteasse com meus amigos. — 30. No entanto, ao regressar o teu outro filho, que esbanjou todos os seus bens com meretrizes, logo lhe matas um novilho gordo. — 31. Meu filho, disse o pai, estás sempre comigo e o que é meu é teu; — 32, mas, pelo que respeita a teu irmão, era preciso que nos banqueteássemos e rejubilássemos, porquanto ele estava morto e ressuscitou, estava perdido e foi achado.

 

De há muito o pai de família repartiu entre vós os bens que vos tocavam. Deu a cada um a sua parte. Que fizestes delas? Em vez de lhe testemunhardes o vosso reconhecimento, o vosso amor, esbanjastes os tesouros que ele vos entregou. A parte que vos cabe na herança é a ciência, a virtude, a vida eterna diante do Senhor. Perdestes, dissipastes esses tesouros com as meretrizes e os companheiros de deboches, isto é, nos vícios de toda espécie, em que vos chafurdastes. Depois, a fome se fez sentir, pois que ela é grande no país em que habitais. Compreendestes, então, que precisáveis "viver" e procurais voltar à "casa paterna". Não pareis no caminho, visto que, por mais culpados e miseráveis que sejais, por mais despidos que estejais, o "Pai de família" vos receberá de braços abertos e seus servos se apressarão a festejar o regresso do filho.

 

Que se deve pensar da opinião dos que pretendem que, em face dos vv. 14-18, ao pecador, que é o filho pródigo, o arrependimento e a necessidade de voltar para casa paterna vêm, não do amor do bem, mas do desejo de trocar os tormentos da miséria pela satisfação do bem-estar?

 

O homem sempre esquece que o corpo oculta a alma e que, nos ensinamentos de Jesus (salvo algumas exceções, aliás de si mesmas claras), o corpo não é senão a figura da alma. Ele usava, com relação ao corpo, de palavras figuradas, que só se devem aplicar à alma.

Sim, depois de haver esbanjado todos os tesouros que tinha em si mesmo, tesouros de força, de ciência, de sabedoria; depois de haver dissipado o seu tempo e a sua inteligência, o filho pródigo sente a fome que o avassala. Faz-se o vácuo no seu íntimo, domina-o invencível tédio e ele se põe ao serviço das más paixões que o esgotam, sem que suas repugnantes escórias o alimentem. Só então, sofrendo os efeitos da miserável condição em que se encontra, pensa, cheio de amargura, em tudo o que perdeu. Só então se lembra do pai, do seu Deus, tão bom, tão terno, único capaz de lhe restituir os tesouros perdidos.

 

Nesse momento, humilde e arrependido, dirige-se ao Senhor, dizendo: Meu Deus, meu pai, pequei contra ti, julguei-me bastante forte para, dispensando conselhos e proteção, dispor à minha vontade das riquezas que me entregaste; reclamei-as antes de tempo, quando delas ainda me não sabia servir; esgotei-as, meu Deus, e agora eis-me aqui, despojado de tudo, sem mais possuir a inteligência que guia, o amor da ciência, que eleva, a força de lutar, que engrandece.

 

Tenho fome, devora-me a fome do futuro. Sinto que não me criaste para viver nesta abjeção, as minhas aspirações te buscam., só tu podes reparar as minhas perdas.

 

Oh! meu pai, abre teus braços paternais para acolher o filho arrependido, restitui à minha alma a força, a inteligência, o amor, a fim de que, compreendendo cada vez mais vivamente as culpas em que incorri para contigo, cada vez mais me esforce pelas reparar.

 

Tendo-se em vista estas palavras de Jesus (Lucas, XIV, vv. 24-35) : "O sal é bom, mas se o sal se torna insípido, com que temperareis?

 

Não servirá mais nem para a terra nem para os adubos, e será, por isso, posto fora; que ouça aquele que tiver ouvidos de ouvir", quais o sentido e o alcance da parábola do filho pródigo?

 

Aquele, que persevera no mal, que recusa ouvir qualquer conselho, é como a semente estéril: não presta para ser lançada à terra, porque nada produzirá; não presta para ser lançada na estrumeira, porque, devendo o estrume auxiliar a vegetação da terra, o grão estéril que nele se lance, além de inútil para a germinação das outras sementes, ainda se apropriará de uma parte dos sucos nutritivos, para não dar mais do que uma erva abundante e efêmera, nociva ao resto da plantação, sem nada de proveitoso colher para si mesma.

O homem que se obstina no endurecimento fica incapaz de produzir frutos, isto é, de dar exemplos úteis à moralização de seus semelhantes. Absorve os cuidados e a atenção dos que se lhe consagram, ficando esses cuidados e atenções, que em nada lhe aproveitam, de nenhuma utilidade para outros homens de boa-vontade.

 

Eis porque essas criaturas serão postas fora, isto é, desterradas para mundos inferiores, como se faz com a semente má, que é lançada ao fogo. Aí, passarão, para elas, eternidades de prantos e de gemidos, pois que eternidades de séculos amontoados são necessárias ao desenvolvimento e ao aperfeiçoamento das terras primitivas, são precisas para que estas atinjam, não o grau de superioridade a que se hão de elevar, mas, apenas o nível em que vos achais.

 

A conversão de um pecador causa grande alegria aos que o amam e esperam, porém não elimina as conseqüências da ofensa feita. Simplesmente as atenua. De fato, que é a expiação? A conseqüência do mal praticado, o esforço para o reparar.

 

Qual o Espírito arrependido que não conserva, seja qual for o perdão obtido, lembrança tanto mais amarga de suas faltas, quanto maior se tenha manifestado a bondade do Senhor?

 

Qual o Espírito que não tentará fazer voluntária e alegremente tudo o que possa por apagar os traços de um passado que o aflige e por merecer os favores de que se sente objeto?

 

A consciência do homem honesto não lhe brada quando, por um arrastamento qualquer, ele se afasta do caminho que reconhece ser o único honroso? E qual o seu maior desejo, senão o de reparar o mal que causou, apagando-o com o bem? Ora, se isto é o que se dá com alguns de vós outros, que não será em se tratando de Espíritos cujos sentidos alcançaram uma sutileza e um desenvolvimento extremos ?

 

A justiça do Senhor segue sempre o seu curso no tocante à expiação e à reparação, que constituem, para o Espírito culpado, as sendas da purificação e do progresso. Mas, aquele que volta sobre seus passos consegue atenuar o futuro, não o esqueçais nunca.

 

Quais, na parábola, o objeto e o fim dos versículos 26-32, relativos ao filho mais velho do pai de família?

 

(Vv. 26-27.) A resposta do servo ao filho mais velho, que o chamara para interrogá-lo, tem por fim mostrar o acolhimento que o Senhor dispensa àquele cujo arrependimento é sincero, as alegrias que lhe proporciona, os socorros espirituais que lhe concede, por efeito desse arrependimento, que o coloca, em condições de avançar, sem mais desfalecimentos nem paradas, pela estrada de que se desviara.

(Vv. 28-29-30.) A réplica do filho mais velho do pai de família, quando este lhe pedia que entrasse na sala da festa, tem por fim mostrar a tendência do homem para a inveja, para o egoísmo, inveja e egoísmo que o levam a ter ciúmes do que é feito a seus irmãos, considerando-se superior a estes. Aquela resposta põe em destaque esse egoísmo e essa inveja. Não percebendo as graças que cotidianamente lhe são dispensadas, o homem inveja as que julga concedidas aos outros.

Que recompensa lhe deve o Senhor? Não basta lhe conceda participar de suas graças? Notai que a festa celebrada por motivo do regresso do rapaz nenhum compromisso envolve com relação ao futuro, de nenhum trabalho, de nenhuma obrigação o isenta. Festejam-lhe a volta, mas amanhã, amanhã, ele terá que ocupar o seu lugar, que trabalhar e trabalhar com tanto mais zelo e atividade, quanto maior tenha sido o lapso de tempo durante o qual esteve paralisada a obra que lhe cumpre executar.

 

(Vv. 31-32.) As palavras do pai ao filho mais velho têm por fim mostrar a igualdade de todos perante Deus. O pensamento é idêntico ao da parábola dos trabalhadores da última hora.

 

O pai de família fizera entre os dois filhos a partilha de seus bens. Cada um recebera parte igual da herança. Mas o que não se afastara de casa viveu sempre em comum com o pai (o que é meu é teu), isto é, aproveitando das graças já outorgadas e recebendo diariamente novas graças. Como, porém, o hábito o tornara indiferente, não as percebe e então sente inveja do que vê fazer-se aos que voltam a colocar-se na mesma categoria em que ele se acha.

 

"Teu irmão estava MORTO e RESSUSCITOU, diz o pai, estava PERDIDO e foi ACHADO."

 

O Espírito culpado, que se obstina no mal, está morto, no sentido de que o seu estado é o emblema da morte. A morte, na acepção legítima da palavra, é a cessação de todo movimento; logo, numa, acepção figurada, é a cessação de todo progresso. O arrependimento o ressuscita, pondo-o em estado de retomar a sua marcha ascensional. É assim que ele estava perdido e que foi achado.

 

 

NOTAS DA EDITORA — A palavra landes, que se encontra no versículo 16, foi substituída por outros tradutores por — alfarrobas, bolotas, vagens.

A dádiva do anel indicava que o pai não recebia o filho como escravo, visto que naquela época os escravos não podiam usar anéis.

tags:
publicado por SÉRGIO RIBEIRO às 01:09

mais sobre mim
pesquisar
 
Abril 2010
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

16


25
26


Últ. comentários
Excelente texto. Parabéns!
É como você mesmo colocou no subtítulo do seu blog...
Ok, Sergio.O seu e-amil é só esse: oigres.ribeiro@...
Ok, desejaria sim.
Ola, Sérgio.Gotaria de lhe fazer um convite:Gostar...
Obrigado e abraços.
www.apologiaespirita.org
Ola, Sérgio.Gostei de sua postagem, mas gostaria s...

blogs SAPO


Universidade de Aveiro